São Luis - Entidades discutem ações para tirar crianças das ruas

EDUARDO JÚLIO DA EQUIPE DE O IMPARCIAL o Brasil, a realidade dos cachorros é, muitas vezes, melhor do que a de crianças em situação de rua”. Esta foi uma das afirmações do padre italiano Renato Chiera, convidado do Seminário Maranhense Criança Não é de Rua, realizado ontem. O evento, organizado pela Rede Amiga da Criança e pelo Conselho Municipal do Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) e parte da Campanha Nacional de Enfrentamento à Situação de Moradia nas Ruas de Crianças e Adolescentes, pretendeu levantar políticas públicas que vão subsidiar um plano a ser apresentado ao governo federal em julho de 2008. O padre Chiera integra a equipe da campanha nacional. Ele está radicado no Brasil há 28 anos, sendo que há 20 dedica-se ao desenvolvimento de trabalhos com crianças e adolescentes em situação de rua na região da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, apontada pela Unesco como um dos locais mais violentos do mundo. Para o pároco, embora hoje exista uma maior conscientização da sociedade e do poder público sobre o problema, a realidade das crianças brasileiras que vivem nas ruas não melhorou nos últimos anos. “O quadro piorou em dois sentidos: diminuiu a idade da criança que vai para as ruas e, hoje, o espaço urbano está muito mais violento, com o aumento do tráfico, do uso de drogas e da prostituição entre os meninos e meninas”, revelou. Outro convidado do evento foi o secretário nacional da campanha, Bernardo Rosemeyer. Ele destacou que os três pilares do projeto são a promoção do direito à educação social de rua, direito à convivência familiar e comunitária e o direito ao acolhimento institucional, caso a criança manifestar este desejo. Pesquisa O CMDCA de São Luís publicou em 2003 o estudo Crianças e adolescentes em situação de rua no município de São Luís: nuances e interfaces do trabalho infantil e da violência urbana, que integra o projeto Observatório da Criança. O trabalho realizado pelo Centro de Defesa Marcos Passerini apontou que, há pouco mais de dez anos, existiam cerca de três mil crianças e adolescentes em situação de rua em São Luís. Em 2003, 523 foram identificados. O trabalho foi a atividade principal das crianças, apontado em 80% dos casos identificados no estudo. Outro detalhe: 92% dos entrevistados dormiam em casa. Os moradores de rua correspondem a somente 6% dos identificados. Segundo a pesquisa, a maior parte das crianças e adolescentes encontra-se na faixa etária de 11 a 14 anos. Os meninos são maioria, sendo três para cada menina. Das 74 meninas encontradas em situação de trabalho, 40 têm entre 5 e 10 anos de idade. Coroadinho, Anjo da Guarda, Areinha, Vila Embratel, Sá Viana e São Francisco são as principais áreas de procedência dos meninos e meninas entrevistados. Somente da área Itaqui-Bacanga foram 79 identificados. Cinqüenta meninos e três meninas declararam usar drogas. Doze usuários estão na faixa entre 5 e 10 anos. Drogas como solvente, cola, maconha e medicamentos vendidos em farmácias foram detectadas como as mais usadas. Dentre as principais conseqüências do trabalho precoce estão a baixa escolaridade, o fracasso e a evasão escolar, a falta de perspectivas futuras pela ausência de qualificação profissional, debilidades físicas, deformações corporais, exposição a acidentes, doenças ocupacionais e traumas emocionais. Entre as crianças entrevistadas, 131 estavam inseridas em programas sociais, incluindo o Programa de Erradicação do trabalho Infantil (Peti), Bolsa-Escola e Bolsa-Família. Ao todo, 100 entrevistados apontaram ter sofrido violência na rua e indicaram como principais agressores os policiais e, em segundo lugar, as gangues. Foram encontradas, ainda, cinco meninas que sofreram violência sexual. A violência também foi apontada como principal medo, especialmente entre os maiores de 11 anos. O jovem Ricardson Silva Fonseca, 16, integra o quadro de crianças e adolescentes em situação de rua na capital maranhense. Desde os 7 anos, ele trabalha nas ruas da cidade. Há seis meses, Ricardson transporta manualmente mercadorias na área do Mercado Central. O adolescente chega ao local por volta das 7h30 e vai para casa às 14h. Em média ganha R$ 10 por dia, dinheiro que ajuda a sustentar uma família de nove pessoas. Apesar disso, sempre estudou, por isso, não reclama da sua condição. “Quando a gente trabalha e estuda é quase a mesma coisa de ter uma vida normal na infância e na adolescência”, conclui.

09:29 - 24/08/2006






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