A doença que mais mata

É como se um pequeno cano de uma vasta rede de tubulações de água de repente ficasse entupido ou se rompesse. E esse dano, mesmo sendo mínimo, matasse de sede boa parte da população - ou toda ela - de uma cidade. É mais ou menos isso que acontece dentro do cérebro quando o fluxo de sangue que passa por uma artéria é interrompido. Sem oxigênio, os neurônios da região atingida morrem em questão de minutos. As funções em que essas células nervosas estão envolvidas, como andar, falar e raciocinar, podem ficar seriamente comprometidas. Quanto maior a demora no atendimento, menores serão as chances de sobrevivência e mais graves - e irreversíveis - serão as seqüelas. Esse é o mecanismo mais comum de um AVC, ou acidente vascular cerebral, popularmente conhecido como derrame. Trata-se da segunda principal causa de morte no mundo, atrás apenas de problemas cardíacos. A cada ano, 15 milhões de pessoas em todo o planeta são vítimas de derrame. No Brasil, o cenário é ainda mais sério. O derrame é a doença que mais matou nos últimos cinco anos - mais que complicações coronarianas, mais que violência, mais que trânsito. Entre 2000 e 2004, último ano em que os casos foram computados pelo Ministério da Saúde, deixou 317.998 mortos. No mesmo período, o infarto, a segunda principal causa, eliminou 308.944 vidas. Esse elevado índice se deve a dois motivos: o aumento da expectativa de vida e os maus hábitos dos brasileiros. "O derrame acontece mais entre pobres e velhos", afirma Paulo Lotufo, superintendente do Hospital da Universidade de São Paulo e autor de diversos estudos epidemiológicos da doença. Mas quase todo mundo tem na família alguma vítima de derrame. E volta e meia a doença chega aos noticiários, quando atinge personalidades como o carnavalesco Joãosinho Trinta, o cantor sertanejo Sérgio Reis, o primeiro-ministro de Israel Ariel Sharon e até mesmo o papa Bento XVI. Agora, avanços científicos, o aprimoramento de técnicas de reabilitação e campanhas de prevenção fornecem novas esperanças no combate ao derrame. Existem dois tipos de derrame. O primeiro, chamado de isquêmico, acontece pela obstrução de uma artéria por um coágulo de sangue ou pelo acúmulo de placas de gordura. Com a idade, o consumo de comidas pesadas e o aumento do colesterol, essas placas vão se acumulando. Essa é a causa mais comum. A cada cinco derrames, quatro ocorrem dessa maneira. Foi o que aconteceu com Laércio Pereira da Silva, de 47 anos, zelador de um prédio no bairro paulistano da Vila Mariana. Mesmo com colesterol alto, sempre abusou de comidas gordurosas e bem temperadas. Em junho do ano passado, quando saía de casa para fazer compras com a mulher, sentiu o lado direito do corpo dormente - "como se estivesse bêbado", diz. Vítima de um derrame isquêmico, foi atendido a tempo em um hospital da rede pública. Refeito do susto, passou a controlar o índice de gordura no sangue. "Aprendi a lição, comecei a tomar remédios para segurar o colesterol e mudei os hábitos alimentares da família", afirma. O segundo tipo de derrame é o hemorrágico. É mais raro e geralmente ocorre devido ao rompimento de uma artéria. Também pode acontecer quando explode um aneurisma, que é uma dilatação da artéria. O hematoma formado pelo sangramento afeta o tecido cerebral. Muitas vezes ocorre um inchaço (ou edema), que comprime as estruturas do cérebro e pode ser fatal. A pressão alta é a principal causa desse tipo de derrame. E o consumo de sal, bastante alto no Brasil, só piora esse quadro. A Organização Mundial de Saúde recomenda o consumo de até 2 gramas por dia. Cada brasileiro ingere, em média, seis vezes essa quantidade. Sônia Maria Gutierre, de 47 anos, dona de um brechó na zona norte de São Paulo, nunca abusou do sal, não sofre de hipertensão nem foi vítima de um aneurisma. Mas teve o azar de sofrer um derrame hemorrágico devido a uma complicação cirúrgica, quando se submetia à extração de um meningioma, um tumor benigno do cérebro, há dois anos. Como já estava em um hospital, foi rapidamente submetida a uma nova cirurgia para drenar o sangue acumulado. Sônia perdeu boa parte da mobilidade do lado esquerdo do corpo e só consegue andar com a bengala de quatro apoios, a qual apelidou, com muito bom humor, de Martinho da Vila. "Com ela, ando devagar, devagar, devagarinho", diz, em referência a um dos maiores sucessos do sambista. Nem todas as vítimas de derrame estão condenadas a ter um dia-a-dia cheio de limitações. O trabalho de reabilitação pode trazer de volta uma vida normal - ou quase. "Logo após o acidente, outras células nervosas podem migrar para o local atingido e preservar a função afetada", afirma Linamara Rizzo Batistela, presidente da Sociedade Internacional de Reabilitação Médica, com sede na Bélgica, e chefe do setor do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Com exercícios bem orientados e realizados repetidamente, essas células também expandem seus axônios, a parte responsável pela condução dos impulsos nervosos. Esses axônios ocupam então os espaços afetados e transformam a área lesada em funcional novamente. Dessa maneira, o paciente pode recuperar movimentos perdidos. Com os exercícios motores, a vítima também pode aprender a utilizar outros recursos para realizar as mesmas tarefas de antes - por exemplo, levantar da cama com o impulso de apenas uma perna ou escovar os dentes com a outra mão. "Em vez de demorar 30 segundos para abotoar uma camisa, o paciente pode levar três minutos. Mas é importante que o faça sozinho, que não se acostume a que outras pessoas realizem tarefas por ele", diz Linamara. Pacientes em recuperação, como Laércio e Sônia, exercitam-se em salas que simulam quartos de dormir, banheiros, corredores de supermercados. Nesses locais de exercício, o paciente reaprende a executar tarefas domésticas que pareciam impossíveis num primeiro momento. A tecnologia também é um importante aliado. Estímulos elétricos ajudam os músculos a lembrar movimentos esquecidos, como levantar o pé no momento de dar um passo. A aplicação de toxina botulínica, o famoso Botox, um potente bloqueador neuromuscular utilizado para esticar a pele do rosto, também ajuda a enrijecer a laringe e a faringe e, dessa maneira, melhorar problemas de fala. A cada ano o derrame mata 15 milhões de pessoas no mundo, de acordo com a OMS A rede Sarah Kubitscheck, com sede em Brasília, desenvolveu uma técnica de recuperação atualmente em uso em diversos países. O método se baseia nos recursos adotados pelo cérebro para suprir determinadas dificuldades. "Após a lesão, o cérebro procura se reorganizar para funcionar do mesmo jeito", afirma a pesquisadora Lúcia Braga. "Se a pessoa está com problema de fala, e a ressonância magnética mostra que ela está usando a parte cerebral responsável pelo planejamento para compensar a deficiência, indicamos exercícios específicos para reforçar essa área." Outra recente descoberta é o uso de progesterona, tanto em homens como em mulheres, até seis horas após o acidente. "O hormônio ajuda na reparação neuronal na fase aguda", diz Lúcia. Novas pesquisas científicas também estão trazendo rápidos avanços no tratamento do derrame. A principal esperança são as pesquisas com células-tronco. Um estudo do Hospital Pró-Cardíaco, no Rio de Janeiro, avalia a possibilidade de aplicação das células da medula óssea da própria vítima em seu cérebro. Essas células não se diferenciam em neurônios, mas podem ajudar na recuperação de outras maneiras. Introduzidas por um cateter na virilha do paciente, chegam à artéria cerebral atingida, onde, em tese, produzem fatores neuroprotetores, substâncias saudáveis que ajudam na recuperação da área lesada. Essas células-tronco também podem gerar pequenas artérias, que facilitam a circulação de sangue e oxigênio. Até agora, dez pacientes passaram pela primeira fase da pesquisa, que avaliou a segurança do método. O passo seguinte é avaliar a eficácia do tratamento. Experiências similares estão sendo desenvolvidas por um grupo japonês e por outro canadense. "É cedo para cantar vitória, mas estamos muito animados", afirma Hans Fernando Dohmann, diretor-científico do Hospital Pró-Cardíaco.

11:48 - 22/04/2006






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